O
cão que queria ser gato
S
í l v i a S c h m i d t
Um
mago vivia numa imensa aldeia e todos afirmavam
que
ele era capaz de realizar os mais estranhos
desejos.
Um
dia, quando ele orientava algumas crianças,
um cão aproximou-se e o interrompeu:
"
Mago, eu quero que você me transforme num
gato "
- Mas
por que esse desejo tão tolo, meu amigo?
Respondeu-lhe
o cão:
" Eu quero ser
admirado por meu andar gracioso,
por marcar presença sem fazer barulho,
por ter um pulo certeiro,
por sacar a hora certa de me retirar,
por ser carinhoso sem ser servil,
por saber fazer valer minha vontade,
por não incomodar pessoas com festinhas
exageradas,
por respeitar e manter intacta a minha personalidade,
por conseguir o que quero sem lamber a mão
de ninguém ".
- Seja feita
sua vontade! - disse
o mago, tocando
o cão com a ponta de um pequeno bastão.
Imediatamente,
o cão transformou-se num gato.
Feliz, saiu andando, sentindo-se realmente
um gato.
Passados alguns
dias, voltou ao mago
e - desta vez muito triste - disse:
"
Por favor, Mago, faça-me voltar à minha
forma antiga! "
-
Você parecia tão certo do que queria! Por
que
desistiu, meu amigo?
Respondeu
o cão, com ares de muita frustração:
-
Minha aparência foi mudada, virei gato,
mas não
consegui caminhar tão graciosamente como um
deles
e derrubava tudo por onde passava;
não consegui chamar atenção
sem fazer estardalhaço;
quando achei que meu pulo seria certeiro,
vários ratos
e pássaros escaparam a um centímetro de
mim,
e riram muito da minha inabilidade;
quando sacava a hora certa de me retirar
já havia
levado um pé no traseiro;
quando pensava estar sendo carinhoso sem
servilismo,
via que ninguém entendia o que fazia um
gato
com um jornal na boca;
quando imaginei que não importunava as pessoas,
eu as via irritadas com meus estridentes
e desafinados miados;
quando minha vontade prevalecia não conseguia
festejar em silêncio e a sós comigo;
quanto mais orgulhoso me sentia da
minha excêntrica e firme personalidade,
mais abanava o rabo por qualquer presentinho
e muitos acabavam rindo de mim;
mas o pior de tudo era quando lambia
a mão de
alguém que no dia anterior já me dera
uma humilhante vassourada!
Chega! Algo deu errado!
Já que você não sabe fazer tudo certo,
quero voltar a ser cão!
O mago, após
ouvi-lo com muita paciência,
disse-lhe cheio de compreensão:
" Você
queria ser um gato e eu o transformei num
gato.
Sou um mago, mas não sou Deus.
Posso mudar a aparência de coisas e de seres,
mas não posso mudar-lhes a essência.
Eis porque, mesmo parecendo um gato,
você sempre será um cão. Isso não é possível
mudar.
Cada um é apenas o que foi destinado para
ser,
de acordo com sua essência e seu grau espiritual
de aprendizado. A essência é nossa alma.
Isto dito,
o cão voltou a ser cão, só que desta vez
todo confuso e, na continuação, sempre
machucado.
Sua essência não se modificara, mas sua
insatisfação
consigo mesmo e sua frustração por não poder
ser
o que queria, fizeram com que ele passasse
o resto
dos seus dias machucando-se, mordendo seu próprio
rabo.
Enquanto isso,
o mago, do outro lado da aldeia,
continuava a ensinar às crianças:
" Não menospreze
sua essência, ela é a sua Alma.
Aceite quem você é, aceite o que você é.
Caso contrário, o preço a pagar será muito
alto. "
S
í l v i a S c h m i d t
São Paulo / SP
- 27/12/2004 -
Direitos Autorais Protegidos
Copyright ©2004
Versão
em Espanhol
por
Eduardo e Irany Lecea
CIMB
- Consultoria Internacional México-Brasil

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