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U m  G u r u  e  U m a  M u l h e r

S i l v i a  S c h m i d t

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Bateram à porta da casa de um guru e ele mesmo foi atender:
era uma mulher nem muito jovem nem muito madura.


"O que deseja, minha senhora?", disse ele gentilmente.

Respondeu a mulher:
"Aproveitei um tempinho livre e vim visitá-lo, pois eu adoraria
ter metade da sabedoria que dizem que o senhor tem."

"Entre, entre! Fique à vontade e conte-me algumas coisas sobre si.
Terei imenso prazer em ajudá-la naquilo que eu puder."

A mulher pôs-se a falar, e o guru - em silêncio - ouviu-a atentamente:

"Não sei se terei tempo para vir sempre visitá-lo porque é bem
pouco o tempo que tenho para mim mesma, mas tentarei vir sempre
que der: sou casada, tenho dois filhos com menos de 10 anos e dois
com mais de 18. Levanto-me bem cedo, preparo o café da manhã
para todos - inclusive para meu marido - tomo um banho rápido e
levo os dois mais novos para a escola, onde eles permanecem até
o final da tarde, depois vou para o lugar onde trabalho em período
integral. Não é fácil driblar a paciência do meu chefe quando atendo
os telefonemas dos dois mais velhos que se aconselham comigo
antes de tomarem alguma decisão em relação a trabalho ou estudos.
Além deles há também a faxineira que sempre me chama quando
as coisas fogem da rotina, e eu tenho que decidir o que fazer.
Após sair do trabalho apanho as crianças na escola, volto para casa
e logo me ponho a preparar o jantar. Quando chegam meu marido e
os dois filhos mais velhos já está tudo prontinho e cheiroso.
Eles chegam com aquele apetite!
Meu marido até poderia me ajudar a cuidar da louça, mas o senhor
sabe como é: ele chega sempre tão cansado, que prefiro poupá-lo
de mais trabalho. Antes de irmos para a cama tomamos um banho
relaxante, e eu sempre sou a última, assim já enxugo tudo de uma
só vez. Somos um casal que se dá muito bem, mas não dá para
sermos 'românticos' todas as noites, depois de um dia cheio
de trabalho. Às vezes 'calha' e a gente se entende."

O guru já parecia meio inquieto quando perguntou:
"E como são os seus finais de semana?"

Respondeu a mulher:

"Às vezes jantamos fora aos sábados, mas nunca aos domingos,
pois meus pais ou sogros, meu futuro genro e futura nora vêm
almoçar conosco. Imagine quando vierem os netos também!
No final do domingo, quando as visitas já saíram, ajeito tudo,
consulto minha agenda, e já me preparo para uma nova semana.
Finalizando, só por isso já lhe disse desde o início que não sei
se terei tempo para vir sempre aqui conversar com o senhor."

O guru ajeitou seu caprichado bigode e comentou
:
"Posso imaginar como tudo isso é pesado para a senhora".

"Pesado, não!" - exclamou ela.
"Eu sou muito feliz assim e não vim aqui para me queixar,
mas sim na esperança de um dia ser tão sábia como o senhor."

"Minha senhora", disse o guru, "a senhora consegue lidar bem
com tudo isso, sente-se feliz e sorri o tempo todo.
Posso garantir-lhe que a senhora é muito sábia."

"É mesmo?", perguntou a mulher, muito surpresa.
"Então um dia chegarei a ter uma sabedoria como a sua?"

"Não, minha senhora, disse o guru.
"Sua sabedoria é bem maior do que a minha:
eu jamais conseguiria sorrir se levasse uma vida como a sua.
N E M  M O R T O !"

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São Paulo / SP - 01 de março de 2008
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