Simplesmente Um Vira-Latas
©Fátima
Irene Pinto
Procura-se
um cão.
É imprescindível que não tenha nenhum
pedigree.
Preferência para focinhos pretos e pelagem de cor indefinida.
Pode ser magro que, de tanto, tenha o contorno
do esqueleto exposto sob a pele.
Que seja capaz de encarar todas as pessoas com aquela inocente
confiança de cão abandonado, que nunca distingue
quem vai lhe
dar um osso ou uma porrada, e mesmo assim, continua sendo
capaz de olhar amorosamente tanto para os que
o alimentam quanto para os que o escorraçam.
É preciso não ser muito preocupado com auto-estima.
Vira-latas que se prezam costumam não ter nenhuma porque
são poços profundos de desinteressado amor.
Há que ter um olhar terno quase suplicante, ser capaz
de
olhar de soslaio e inclinar a cabeça choramingando,
toda vez que não entender alguma coisa ou ficar desapontado
por um pito que ele nem sabe se mereceu.
Deve ser ruidoso e estridente quando eu estacionar
o carro na garagem, em manifestação inconteste
de satisfação
pela minha chegada e pela minha presença.
Há que saber brincar, esconder chinelos, arrastar tapetes
e correr desvairado quando livre na campina ou na praia,
por saber-me feliz e redobrar as peraltices,
pelo simples fato de notar que eu o observo.
Há que ter senso comunitário e assim, estender
a sua
lealdade aos demais membros da casa e àqueles que
ele sabe que me são caros.
Até hoje eu criei gatos - alguns de raça.
Gatos são altivos, oportunistas, auto-suficientes,
embora muito belos e graciosos.
Tentei (em vão) aprender com eles a lição
máxima da auto-estima.
Gatos são exímios na arte de se vender caro.
Agora eu procuro um vira-latas - talvez nem tenha que procurar
-
não só como amigo, mas como instrutor.
Quero assumir as virtudes que nele sobejam como a transparência,
a ressonância, a espontaneidade e, acima de tudo, a
capacidade de
amar incondicionalmente, mesmo quando escorraçado.
Fátima
Irene Pinto
Texto dedicado a Sultão,
o Vira-Latas da minha infância.
Direitos Autorais Protegidos
Copyright©2002
Foto
acima: Raphael
Abandonado com 2 meses de idade, foi recolhido pela UIPA:
União
Internacional Protetora de Animais
Lá foi adotado por Silvia Schmidt, em 1999.
"Quem
nunca teve um cão nunca foi amado incondicionalmente"
S i l v i a S c h m i d t
Sempre
que copiar, copie com Amor.
Preserve o nome do Autor.
|